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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Quando muda o pronome

Eu te amo porque você gosta das mesmas músicas que eu, eu te amo porque você gosta das mesmas comidas que eu, eu te amo porque você defende as mesmas causas que eu. Eu te amo porque você pensa, come, sente, age, veste, anda... como eu.

Eu te amo porque eu vejo em você o que eu vejo, ou finjo ver, em mim. Eu te amo porque você é assim, assim como eu. Porque você não me provoca mudanças, não me desperta dúvidas, não me destabiliza, não me confunde, não me acrescenta. E eu não preciso de alguém que me acrescente, porque eu estou satisfeita comigo, porque, na verdade, eu me amo.

É tão cômodo, tão fácil, amar alguém que se encaixa ao que somos e vai de encontro ao que almejamos. 

Não! Não! Não...  

Eu não te amo pelo que você é pra mim. Eu te amo pelo que você é, e ponto final. Por você. Não por mim. 

Eu te amo pelo que você soma, acrescenta, contribui. Eu te amo porque você me faz querer mudar para ser uma pessoa melhor.

Eu te amo porque você é outro, completo, inteiro. Eu te disse, não acredito em metades da laranja, Deus é muito perfeito para criar metades... Para amar, há de amar por inteiro. Para ser amor, há de ser por completo.

Eu te amo porque você é real e não reflexo, porque eu te admiro e te enxergo além de mim.

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ps: eu não sou assim tããão cabeça-dura, né? ;)


Som da Vez: Eduardo e Mônica - Legião Urbana

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Nem senhor da própria história

Enquanto o sol morria por entre as frestas da madeira velha da porta e a garotinha por trás do balcão parecia velá-lo, entrou um rapaz sisudo e de calças rasgadas à altura dos joelhos. Estava com o chapéu nas mãos, os óculos na camisa e os olhos no chão, parecia que nada nele pertencia ao devido lugar e que o mesmo não pertencia a lugar algum. Deixou escorregar a mochila até que chegasse ao assoalho e indagou: a senhorita teria algum jornal?
- Oi?
- Um jornal, não precisa ser recente, de qualquer data serve.
- Jornal?
- Isso mesmo. Ou alguma revista.
- Ora essa! E o que é que o moço vai fazê com um jornal?! Ocê não me parece doutô, vestido assim...
- Veja bem, você pode me trazer um copo d'água. Depois veja algo para eu comer, algum quarto e uma toalha. Mas primeiro, eu gostaria que me trouxesse apenas um jornal.
- Óh, jornal num tem, nem novo, nem véio... Mas se o sinhô quisé a água tá'qui e a comida alguém já te traz qu'eu já vou ajeitar um quarto.
O rapaz pegou o copo e bebeu o líquido sem gosto a contragosto. A garota subia as escadas que rangiam a cada degrau sem se conformar com tamanha burrice, afinal...
- O que que um homem nesse estado pode querer com um jornal que nem precisa ser do dia? Primeiro achei que era moço de pouca idade, mas com aquela cara fechada e essa mania de me apurrinhá por causa de um jornal, bom é tratá como sinhô...
- Ê, minina! Já disse pra pará com isso de ficá bisbilhotanu a vida dos cliente!
- Ar, Dona Tereza, nunca vi isso, homi esquisito!
- O que é que tem? É moço novo, eu vi nos olho dele, mas nada de si'ngraçá!
A senhora desceu para levar sustento ao sujeito que causava rebuliços na cabeça da afilhada. Ele comeu afoito, agradeceu e foi logo dizendo:
- A senhora desculpe o mau jeito, mas preciso de um banho e uma cama.
Assim, foi subindo as escadas apoiando-se nas paredes porque já não havia força nas pernas. Quando enfim alcançou o quarto, notou que a garota curiosa saíra com demasiada pressa ao notar que se aproximava.
- Espere aí! Você... Vocês não teriam um rádio aqui?
Ela deu de ombros e murmurou alguma coisa enquanto saía.
Ele apoiou-se na cama com extremo cuidado a fim de assentar e disse sem saber se sua ouvinte estava ali para ouvir:
- É que às vezes menina, a gente passa tanto tempo correndo atrás do nosso destino que nem se dá conta do que aconteceu no caminho. E passa a procurar um jeito de saber o que foi quando a gente não foi. Posso lhe dizer que há tempo tenho andado por aí, correndo atrás de nem sei o quê, e não sou moço, nunca fui. Não fui o mocinho da estória, nem nunca serei o "sinhô" dela...

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Entre aspas: Fernando Pessoa

"Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida

E outra que é pensada,

E a única vida que temos

É essa que é dividida

Entre a verdadeira e a errada".





P.S.: se tivesse feito essa leitura ontem, teria polpado o blog da última postagem...

Som da Vez: Adele - Chasing Pavements